( JC – Editorial ) Uma crise aguardada
A área social no Brasil continua sem despertar a devida atenção dos poderes públicos, apesar de alguns progressos pontuais, que se perdem no oceano do descaso público. Educação, saúde, previdência recebem verbas escassas, insuficientes para atender à demanda. Além disso, o pouco dinheiro que lhes é disponibilizado é mal empregado, atendendo tradicionalmente a objetivos político-eleitorais e sem dispensar o costumeiro ralo da corrupção. Vêem-se comumente hospitais prontos mas sem uso, obras mal acabadas e com material de má qualidade, tudo escapando à fiscalização que deveria remediar esses malfeitos. Os professores não recebem salários condignos e são obrigados a aceitar bicos para complementar o dinheiro de que precisam simplesmente para tocar a vida, mesmo sem possibilidade de reciclagem, compra de livros e outras despesas indispensáveis a um mestre.
Para se ter uma idéia do pouco caso com a educação, por exemplo, basta recordar uma situação que ocorre todos os anos em Pernambuco, qualquer que seja o partido no poder. No dia do começo do ano letivo, basta a pessoa abrir um jornal, ver ou ouvir um noticiário para ficar sabendo que, em tais e tais escolas, as aulas não puderam se iniciar porque elas estão em obras que não se sabe quando irão terminar. Mais de dois meses de férias escolares não bastaram para realizar a manutenção necessária. E não se trata nem de manutenção só. Quando se resolve fazer alguma coisa, já está tudo tão deteriorado que é preciso partir da estaca zero. E há escolas que são assaltadas e depredadas sistematicamente sem que se tomem providências rotineiras.
No setor de saúde, o problema da vez é a crise no Hospital do Hemope, único estabelecimento público no Estado habilitado a realizar transplantes de medula óssea. Apesar de ser muito grande a demanda por esse procedimento, o Hemope está há quatro meses sem poder fazer transplantes. E por quê? Faltam medicamentos necessários para o tratamento pós-operatório. No ano passado, apenas quatro cirurgias desse tipo foram realizadas, embora o hospital esteja capacitado a fazer até dois transplantes de medula óssea por mês. O que a sociedade quer saber é: por que faltou dinheiro para a aquisição dos itens indispensáveis a tão vitais transplantes?, se havia dinheiro, teria sido desviado para outros fins?, teria escoado pelo ralo da corrupção?, faltou o simples e corriqueiro planejamento no pedido de reposição dos medicamentos necessários?
Dificilmente, como sempre, tais indagações serão respondidas. E coisas como o bom funcionamento de um hospital público, que caberia a uma administração profissional, não interessam tanto assim aos profissionais da política. Assim, os que ocupam cargos públicos, nos mais diversos escalões, estão geralmente imunizados contra aquele tipo de indagação. Resta à imprensa, ao Ministério Público, investigar o que há por trás de mais uma evidência de incompetência e pouco caso com a saúde pública.
Casos dramáticos não comovem políticos profissionais. Um paciente com mieloma múltiplo, candidato a transplante, se submete, desde julho do ano passado, a sessões de quimioterapia e toma remédios. Seu transplante estava previsto para ocorrer entre dezembro e janeiro. Seu receio agora é que a solução demore muito e ele tenha de recomeçar tudo. Um outro paciente, já submetido a transplante, não consegue o medicamento que deveria tomar para evitar infecção por fungos. Não tem dinheiro para comprá-lo por sua conta e teme o pior.
Essa falta de planejamento e de verbas, ou mesmo mau uso do dinheiro disponível, ocorrem também em outros setores. O serviço brasileiro de atendimento a aidéticos e soropositivos é considerado um dos melhores do mundo. No entanto, não é raro faltar verba para a compra de medicamentos básicos do coquetel anti-aids. Cabe aqui ainda lembrar os escândalos da hemodiálise que abalaram Pernambuco há alguns anos, quando clínicas privadas foram acusadas pela morte de pacientes. Não se sabe de nenhuma punição. Será que se vai esperar que comecem a morrer pacientes do Hemope?