(DP – Vida Urbana) Fama de violenta deixa seqüelas em Itamaracá
A Ilha de Itamaracá não é mais a mesma. Desde a semana passada, quando foi citada no Mapa da Violência, feito com base nos dados do Ministério da Saúde, como a cidade com maior taxa de homicídios de Pernambuco, seus moradores dizem amargar os resultados produzidos pela má fama. Uma injustiça, na opinião deles, que mal lembram dos homicídios mais recentes registrados nos últimos três meses no município. A 48 quilômetros do Recife, a Ilha apresenta uma situação singular, já que abriga três unidades penais. Somente em 2002, foram 16 crimes de morte dentro da Penitenciária Agroindustrial São João, antiga PAI. Números que não se refletem na realidade da comunidade, na opinião da administração do município e dos representantes do Judiciário. A pesquisa avaliou os anos de 2002 a 2004 com base em dados do Ministério da Saúde.
"A pesquisa está correta, mas é preciso levar em conta que de dez julgamentos que vão para a pauta do dia, oito são relativos a fatos que acontecem dentro das penitenciárias. Se as unidades penais saírem da Ilha, a violência cai em 80%", garantiu o juiz Romero Aquino. Itamaracá registra outros fatos curiosos na opinião do magistrado. O juiz contou que, em 2004, apenas uma pessoa foi responsável por oito assassinatos. O número significa 26,6% do total de trinta crimes de morte registrados naquele ano. "O pior é que o acusado era de Água Preta e estava em Itamaracá porque cumpria pena na antiga PAI", acrescentou a promotora Belize Câmara.
Segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS), o índice de homicídios na Ilha vem caindo desde 2003. Em todo o ano passado, por exemplo, foram registrados nove homicídios, ou seja, dois a menos que no ano anterior e 21 a menos que os notificados em 2004, onde aconteceu o pico de violência devido aos crimes na PAI. Sempre distoantes, os números da SDS são até mesmo maiores que os que serviram de base para o Mapa da Violência.
O prefeito da cidade, Paulo Geraldo Xavier, defende que Itamaracá tem um dos menores índices de violência no estado. "Se aconteceram nove homicídios no ano passado, então é menos de um assassinato por mês", calculou. O prefeito lembrou, ainda, que o município passou seis meses sem registrar crimes de morte em 2006. "Lembro que mataram duas vítimas em maio e uma outra na Semana Santa. Depois desses casos, somente voltamos a registrar uma morte no final do ano", lembrou.
Protesto - Morador do município há trinta anos, o comerciante Walter do Prado Oliveira, 57 anos, fez um protesto solitário ontem na prefeitura. Ele contou ter convocado a população para ir até à sede do governo municipal para buscar ajuda e tentar mudar a imagem que a Ilha adquiriu com a divulgação do mapa. Apenas ele compareceu ao protesto e chegou a chorar. "Tenho dois imóveis na Ilha para vender, mas o corretor disse que ia retirar as placas de venda porque minha casa não vale mais nem um conto de réis depois da divulgação da pesquisa", disse emocionado. A comerciante Clemilda Batista, 26, garantiu que já percebeu uma queda no número de clientes no bar onde trabalha, no últimofinal de semana. "Moro aqui desde criança e me sinto muito segura. Volto para casa tranqüila qualquer hora da madrugada. Não concordo com essa notícia", criticou.
Coordenador nega distorção
O coordenador do Mapa da Violência, o pesquisador argentino Julio Jacobo, discorda que haja uma distorção na realidade percebida em Itamaracá. Para Jacobo, pouco importa se o homicídio acontece dentro de uma cadeia ou em uma favela violenta do Rio de Janeiro. "Estou colocando um termômetro no país e cada município deve fazer o diagnóstico para saber onde acontece o crime e evitar que se mate tanto. Não é normal que se mate tanto dentro de um presídio durante um ano inteiro. Estamos assistindo a uma tal banalização da violência que terminamos achando essa situação normal", alertou.
Os moradores e outros formadores de opinião de Itamaracá não são os únicos a se queixar dos resultados da pesquisa. O governo de São Paulo, por exemplo, disse que o documento tem sérias distorções. Segundo a pesquisa, São Paulo tem 71 cidades (12,77%) entre as 556 tidas como as mais violentas do país quando o tema é homicídio.
Para o sociólogo Túlio Kahn, da Coordenadoria de Análise e Planejamento e responsável por todos os estudosde violência da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, não é válido para a sua instituição saber onde a vítima morava, mas onde aconteceu o crime. A pesquisa da área de saúde, que foi a base usada para o mapa da violência, segundo Kahn, leva em conta o local onde a vítima vivia. "Porque se tiver que alocar viaturas, efetivo, eu quero saber onde estava o criminoso", disse o sociólogo em entrevista à Folha de São Paulo.
Em Borá, a 481 quilômetros de São Paulo, cidade com 838 moradores, foram registrados entre 2000 e 2006 apenas um homicídio doloso (em 2004). Mesmo assim, a morte fez com que a cidade figurasse como a sexta no ranking dos 556 municípios em que mais se matou com arma de fogo entre 2002 e 2004.
Jacobo explicou que o cálculo é feito através de uma média onde o número de incidentes dos três anos pesquisados é dividido pela população e seu resultado é multiplicado por 100 mil. Itamaracá, hoje tem cerca de 20 mil habitantes, segundo o prefeito, mas foi estudada por Jacobo com 17.168 habitantes,como tinha na época. Terminou amargando o nono lugar entre as cidades com maiores taxas de homicídios no país, com 95,1 homicídios por 100 mil habitantes.
A pesquisa foi realizada pela Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) e divulgada na última terça-feira em todo o país. Pernambuco, segundo o documento, é o estado brasileiro que concentra a maior quantidade de municípios que apresentam os índices mais altos de homicídios do país. O estado reúne 84 das 556 cidades brasileiras consideradas mais críticas. O estudo revelou pela primeira vez o perfil da violência por município.